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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

(Review) 'O Vale do Amor' marca encontro entre dois grandes nomes e rende curiosa mistura entre realidade e ficção

Com roteiro e direção de Guillaume Nicloux, O Vale do Amor exibe narrativa marcada por elipses, imagens do deserto da Califórnia, além de experimentações nas formas de conduzir o olhar. O drama investe na mistura entre realidade e ficção ao retratar Gérard Depardieu e Isabelle Hupert como personagens de si mesmos.

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Imagem/ Imovision
Após longos anos sem se ver, Gérard e Isabelle precisarão se reencontrar para atender ao último desejo do filho. Michael cometeu suicídio, mas não sem antes deixar rigorosas instruções a serem seguidas pelos pais em pleno Vale da Morte, um ambiente inóspito com temperaturas altíssimas, por volta dos 50ºc. 

Na trama, os artistas adotam os próprios nomes e os aspectos pessoais passam a ser explorados de modo explícito pela ficção, tal como o diálogo travado entre Hupert e Depardieu sobre a relação dele com a bebida. Da mesma forma, o fato do ator estar acima do peso é assunto e, sem qualquer espécie de pudor, essa condição é ressaltada.

O jeito bonachão e rústico dele se opõe a contenção de Hupert, tomada por um sentimento de culpa feroz pela morte do rebento. Neste sentido, o cineasta, com apoio do fotógrafo Christopphen Offenstein, também trabalha a tensão em sequências pontuais sob um ponto de vista que acompanha os passos dos protagonistas de costas para a câmera, uma sensação de curiosidade ou mesmo aflição pode ser provocada por esse artifício.

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Imagem/Imovision
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Imagem/Imovision
A opção pelos planos gerais do cenário desértico resulta em belas imagens, mas também colabora para a construção de uma narrativa mais estática com paisagens livres de muita movimentação, feito uma fotografia. Mesmo com a opção constante pelas elipses, ou seja, a pressuposição ou omissão de certas informações com um corte para a cena seguinte, o segundo ato tende a uma maior lentidão.

Todavia, o investimento nas pitadas de humor cheias de crítica, os enquadramentos de câmera e recortes de luz, assim como as cores vivas de objetos cênicos ou figurinos em contraponto a locação são pontos assertivos e merecem destaque. Talvez, o drama pudesse ser mais explorado e as elipses pudessem dar espaço a algumas cenas mais elucidativas, aliás, Hupert acerta no tom e concede uma credibilidade cativante para a história.

Não é novidade trazer atores para interpretarem a si mesmos, mas são dois grandes nomes do cinema francês em ação, O Vale do Amor poderia ser menos fragmentado, entretanto, é uma obra de diretor com experimentações estéticas e reflexões ricas sobre a vida humana, esta permeada por medos, ressentimentos, culpas e perdas, mas com a perspectiva do amor como a maior certeza.


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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ponto de vista sobre novo filme de Fede Alvarez

Acesse o É Cinematográfico no YouTube e confira a crítica de O Homem nas Trevas, filme dirigido por Fede Alvarez e protagonizado por Stephen Lang. 

Imagem/Sony Pictures

Confira o vídeo


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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

(Review) Aquarius: olhar aguçado de Kleber Mendonça Filho sobre as belezas e mazelas da vida em sociedade

Do micro ao macro, Aquarius consegue explicitar as mazelas e belezas da vida em sociedade, o cineasta trabalha com uma perspectiva sobre a memória e os engajamentos afetivos do ser humano, além de levantar questionamentos sobre as posturas do homem contemporâneo. Com uma assinatura peculiar, Kleber Mendonça Filho investe em diálogos fortes e conta com o empenho de Sônia Braga em plena maturidade artística.

Kleber Mendonça Filho e Sônia Braga em momento de descontração - Imagem/Vitrine Filmes 
Na trama, Clara é pressionada a vender o apartamento para uma grande construtora, o local para ela é a representação de uma vida inteira marcada pela superação, pelo amor e pela convivência em família. Em meio a isso, a protagonista será testada e precisará encontrar forças para exercer o direito de ali permanecer e não ceder aos ataques dos interessados neste negócio.

Sem pudores, Sônia Braga se entrega a personagem em cenas livres de qualquer glamour e mesmo nas sequências de sexo o tom é naturalista e casa com a proposta narrativa que de início causa estranheza pela inserção de sequências com este teor. Aliás, o grande acerto da atriz foi o equilíbrio entre força, beleza, sensibilidade, racionalidade e também a estupidez, traços que compõe o perfil desta jornalista, como bem destaca a canção Meu jeito estúpido de amar, trilha do longa.

Na verdade, toda essa atmosfera cotidiana e a naturalidade empregada são características presentes na obra do diretor de O Som ao Redor. Gostem ou não, Kleber Mendonça Filho tem identidade e os trabalhos dele possuem uma assinatura característica, em Aquarius ele é ousado e dirige o elenco em embates marcados por diálogos engenhosos, desde a discussão sobre as novas mídias até as difíceis e delicadas relações familiares.


Imagem/Vitrine Filmes

Destaque para as atuações, livres de qualquer overacting, aliás, algo pertinente a orientação do cineasta e roteirista do filme, nesta linha, a violência também se faz presente em diversos momentos, mas quase sempre de forma velada, como no embate travado entre Clara e Diego, figura interpretada por Humberto Carrão.

O preconceito é demonstrado, o poderio das oligarquias também é lembrado, o posicionamento social daqueles menos privilegiados é discutido mesmo que em conversas amorosas entre familiares. Quanto à forma, a disposição da trama em capítulos é funcional e o título final, além de intrigante, dialoga perfeitamente com o mal que se instala na vida em sociedade, algo enraizado e devastador.

De viés reflexivo e forte perfil autoral, Aquarius marca o retorno de Sônia Braga ao cinema brasileiro em um papel de peso e, além disso, consolida o nome de Kleber Mendonça Filho como um dos expoentes desta nova safra da produção nacional. Vale a pena conferir!



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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

(Review) 'Quando as Luzes se Apagam' provoca sustos e tensão, mas não se destaca

Baseado no curta lançado em 2013, Quando as Luzes se Apagam promove momentos de horror e confirma a boa desenvoltura do cineasta David Sandberg em produções do gênero. No entanto, o longa-metragem exibe uma narrativa pouco consistente marcada por atuações questionáveis e uma trilha sonora dispensável.

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Imagem/Warner Bros. Pictures
Na trama, Rebecca atende ao pedido de ajuda do irmão caçula, mas ao fazer isso ela irá se deparar com lembranças de um passado familiar conturbado e precisará lidar com o desequilíbrio mental da mãe e enfrentar uma entidade monstruosa capaz de exterminar todos ao redor.

Na pele da matriarca, a atriz Maria Belo é até bem aproveitada, já Teresa Palmer como a filha independente não passa a credibilidade exigida pelo papel, neste sentido, a ideia de manter a jovem sempre maquiada e com um visual atraente mesmo em cenas mais tensas não contribui para a veracidade de toda a situação. 

Por mais cruel que o comentário pareça, também é perceptível a falta de naturalidade do ator mirim, Gabriel Bateman, em uma performance marcada pelo exagero, além disso, o personagem apresenta uma suposta maturidade bastante conveniente ao roteiro, ou seja, nada soa orgânico.

A dificuldade no equilíbrio das interpretações, a história ávida por atender aos requisitos e códigos típicos do horror, além do compromisso excessivo com uma estética hollywoodiana dificultam o crescimento da trama como um todo e levam a questionamentos sobre a concretude do roteiro de Erick Eisser ou mesmo sobre o papel do diretor na escolha do elenco ou mesmo na orientação deles em cena.

Imagem/Warner Bros. Pictures

Nesta linha, a trilha musical não contribui e exibe uma melodia bastante típica a filmes de suspense para a televisão, algo dispensável para a proposta narrativa que ganharia ainda mais ao investir nos silêncios ou mesmo em uma trilha ousada e pontual.

Por outro lado, a objetividade empregada também proporciona aspectos positivos e a ideia de já nos primeiros cinco minutos apresentar a entidade monstruosa em ação funciona como um bom gancho a ser explicado ao longo dos 81 minutos de exibição. Destaque para o momento inicial que conta com a participação especial de Lotta Losten, estrela dos principais curtas de Sandberg.

É preciso ser justo, inovar é algo dificílimo, especialmente em produções mainstream, mas vale ressaltar o notório conhecimento e intimidade do cineasta com o horror, algo visível em cenas bem-sucedidas de tensão, pontuadas por alguns sustos típicos, porém eficientes. Outro ponto positivo é o uso do flashback no momento apropriado, porém é a forma como isto se apresenta na tela que o deixa quase fluído.

O filme oferece uma história simples, com argumentos pouco desenvolvidos mas eficientes ao proposto, de qualquer forma, é sempre bom ver um cineasta tão engajado com o gênero alcançar a oportunidade de realizar um longa-metragem, além do mais, orquestrar uma produção de grande estúdio não é algo fácil, outras questões entram em jogo.

Dentro do esperado da cinematografia típica de terror, Quando as luzes se apagam cumpre o objetivo, mas não se destaca, assista sem grandes expectativas.


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