(Review) Aquarius: olhar aguçado de Kleber Mendonça Filho sobre as belezas e mazelas da vida em sociedade

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Do micro ao macro, Aquarius consegue explicitar as mazelas e belezas da vida em sociedade, o cineasta trabalha com uma perspectiva sobre a memória e os engajamentos afetivos do ser humano, além de levantar questionamentos sobre as posturas do homem contemporâneo. Com uma assinatura peculiar, Kleber Mendonça Filho investe em diálogos fortes e conta com o empenho de Sônia Braga em plena maturidade artística.
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Kleber Mendonça Filho e Sônia Braga em momento de descontração – Imagem/Vitrine Filmes

Na trama, Clara é pressionada a vender o apartamento para uma grande construtora, o local para ela é a representação de uma vida inteira marcada pela superação, pelo amor e pela convivência em família. Em meio a isso, a protagonista será testada e precisará encontrar forças para exercer o direito de ali permanecer e não ceder aos ataques dos interessados neste negócio.

Sem pudores, Sônia Braga se entrega a personagem em cenas livres de qualquer glamour e mesmo nas sequências de sexo o tom é naturalista e casa com a proposta narrativa que de início causa estranheza pela inserção de sequências com este teor. Aliás, o grande acerto da atriz foi o equilíbrio entre força, beleza, sensibilidade, racionalidade e também a estupidez, traços que compõe o perfil desta jornalista, como bem destaca a canção Meu jeito estúpido de amar, trilha do longa.

Na verdade, toda essa atmosfera cotidiana e a naturalidade empregada são características presentes na obra do diretor de O Som ao Redor. Gostem ou não, Kleber Mendonça Filho tem identidade e os trabalhos dele possuem uma assinatura característica, em Aquarius ele é ousado e dirige o elenco em embates marcados por diálogos engenhosos, desde a discussão sobre as novas mídias até as difíceis e delicadas relações familiares.
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Kleber Mendonça Filho e Sônia Braga em momento de descontração – Imagem/Vitrine Filmes

Destaque para as atuações, livres de qualquer overacting, aliás, algo pertinente a orientação do cineasta e roteirista do filme, nesta linha, a violência também se faz presente em diversos momentos, mas quase sempre de forma velada, como no embate travado entre Clara e Diego, figura interpretada por Humberto Carrão.

O preconceito é demonstrado, o poderio das oligarquias também é lembrado, o posicionamento social daqueles menos privilegiados é discutido mesmo que em conversas amorosas entre familiares. Quanto à forma, a disposição da trama em capítulos é funcional e o título final, além de intrigante, dialoga perfeitamente com o mal que se instala na vida em sociedade, algo enraizado e devastador.

De viés reflexivo e forte perfil autoral, Aquarius marca o retorno de Sônia Braga ao cinema brasileiro em um papel de peso e, além disso, consolida o nome de Kleber Mendonça Filho como um dos expoentes desta nova safra da produção nacional. Vale a pena conferir!

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