(Review) ‘Spotlight’ cumpre função e transpõe polêmica para o cinema, mas a ousadia não se estende à forma

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Sob a direção de Tom McCarthy, Spotlight: Segredos Revelados investe no que foi a investigação do The Boston Globe sobre os casos de pedofilia relacionados à igreja católica. Apesar de a trama exibir dados bastante concretos, contar com atuações corretas e cumprir com a função social, a narrativa segue uma linha mais contida, sem inovações quanto à forma. 
Michael Keaton em cena – Imagem/Sony Pictures

Baseado em fatos reais e ambientado em Boston, o filme narra a trajetória de uma equipe jornalística empenhada em descobrir e denunciar sistemáticos casos de pedofilia cometidos por padres e, posteriormente acobertados pelo alto clero.

 Ao prestar um serviço de utilidade pública, Spotlight bebe justamente na essência mais nobre do jornalismo e desenvolve a trajetória sob essa perspectiva. Com a atenção dividida entre os integrantes do elenco, não há o investimento maciço em uma figura central, na verdade, a história é o foco desta produção, ainda assim Mark Rufallo, Michael Keaton e Rachel McAdams se destacam.
Keaton e Ruffalo em destaque – Imagem/Sony Pictures

Outro ponto importante é a honestidade empenhada ao retratar a iniciativa nobre, já que também surge como uma estratégia para conquistar público e reforçar a imagem do Globe, algo proposto pela nova chefia representada pelo ator Liev Schreiber, aliás, bastante convincente no papel. Tocar em uma ferida destas, levando-se em conta o índice de 53% de leitores católicos é algo ousado.

Porém, a ousadia não se estende a forma, o próprio trabalho de fotografia do primoroso Masanobu Takayanagi não resulta em algo marcante. Neste sentido, a linearidade associada ao compromisso com os diversos dados levantados pelas pesquisas, por vezes, pode dificultar um percurso mais agradável.

Com a narrativa um tanto convencional, o roteiro é composto por uma breve cena inicial (gancho) datada de 1976 e a posterior transposição para o ano de 2001, período em que se desenrola a maior parte da trama. Entretanto, a opção pelo tradicional não é demérito, mas apenas uma escolha, no caso, coerente com o objetivo desejado.

Os próprios arquivos do jornal também serviram de fonte de pesquisa Imagem/Sony Pictures
Michael Keaton, Liev Schreiber, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, John Slattery e Brian d’Arcy James – Imagem/Sony Pictures

Ao que tudo indica, o foco se dá no processo investigativo, permeado pela clareza dos testemunhos sobre os abusos, tanto naquilo dito pelas vítimas quanto por um dos detratores. Além disso, há um contraponto interessante entre o forte senso de responsabilidade dos jornalistas frente a pressão exercida pela igreja para camuflar tais escândalos.

Spotlight – Segredos Revelados é correto e McCarthy cumpre bem a função de transpor para as telas tal denúncia, mas não inova como arte cinematográfica. Ainda assim, o longa tem mérito por atualizar a discussão sobre a pedofilia e ressaltar a fragilidade das famílias mais pobres diante de tal violência. Uma temática preocupante e ainda muito presente nos dias de hoje.

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